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alfacinha

Gostarmos de nós: a banalidade que não deve ser trivial

 

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Tirei esta fotografia há dois dias e debati-me mil vezes se a havia de publicar ou não. Para muitos, não haverá aqui questão alguma e será uma fotografia normal, sem nada de extraordinário. A mim não me fez parar de pensar.

É de mais? É demasiado "tcharam"? Tem a ver comigo? Estou com ar de quem manda no mundo? Pareço uma diva à procura de plateia? Foram estas e tantas outras perguntas que andaram a passear na minha cabeça. Todas elas contrastavam com a minha reacção inicial. Porque, quando  olhei para a fotografia pensei "bolas, estás mesmo bonita nesta fotografia miúda !" E este pensamento foi, acreditem ou não, do mais inocente e ingénuo que possa haver. Tão inocente como a miúda de doze anos que tinha medo de falar mais alto ou de apresentar um trabalho à frente da turma. Tão ingénuo com a cachopa que gosta ,ao longe, do rapaz popular do colégio e que acha que nunca vai ser a miúda da porta ao lado.

Voltando à fotografia, entre fraldas e almoços , pensei se havia de publicar a dita cuja ou não. Enviei a chapa a várias amigas, para obter as mais diversas opiniões. Porque, para além de birras e de leite derramado, também falamos de coisas mais ou menos fúteis. Essas, às vezes, são entre mães e amigas verdadeiros aquecedores de alma. As opiniões que recebi foram todas consonantes: talvez seja um bocadinho de mais, mas se gostas vai em frente e publica. Uma amiga, franca e honesta, foi directa ao assunto e disse "Oh mulher, se estás a enviar é porque gostas. Por isso, vai em frente. Mas não abuses." E foi nesta frase que percebi que a decisão já estava tomada à partida. {às vezes somos tão complicadas que nos enlouquecemos umas às outras }.

A verdade, nua e crua, era que queria mesmo publicar a fotografia, mas não queria que ela me definisse. Corrijo-me, não queria que ela definisse o meu todo. Muitas vezes, o menos de nós vem ao de cima e outras tantas acaba por nos definir. E se isso não tem nada de mal, torna-se por vezes, uma barreira para uma infinidade de possibilidades. E eu odeio barreiras. No entanto, não tendo eu este ar fresco e radioso todos os dias, gostei do facto de o apreciar entre brincadeiras no quarto do chão do meu filho de dois anos. Porque, afinal essa é a magia da fotografia. Quando a tirei, o Manel estava-me a morder os tornozelos e o cão estava a rebolar no tapete novo freneticamente. Estávamos em cima da hora de almoço, entre birras e berros, com trinta mil coisas por fazer e várias por alinhavar. Mas, há um segundo em que a mulher aparece por detrás da mãe atarefada. Há um segundo em que a mulher confiante se ergue atrás da miúda de liceu. Captado num instante, sem querer, com a descontracção com que um miúdo de dois anos tenta roer os tornozelos da mãe. Tudo isto tem que ter algum toque de magia (e de alguma base que tinha posto vá).

Se odeio que a imagem crie barreiras, adoro quebra-las através dela. E quando uma imagem nos está a fazer pensar, está automaticamente a quebrar uma barreira, ou, pelo menos está a tentar. Uma mãe é mais do que uma mãe. Uma mulher é mais do que uma mulher. É mais do que um palmo de cara ou do que uma figura mais ou menos voluptuosa. Se não nos devemos esquecer de um, julgo que também não devemos abusar de outro. Mas, que podem andar de mãos dadas podem. Sem excessos e sem nos definirem.

No fundo, somos todas "miúdas do lado"  a partir do momento em que gostamos de nós. E quando acreditamos nisto (quase) tudo é válido e nada é de mais. Com conta, peso e medida. É isso que nos torna verdadeiramente especiais, sermos "miúdas do lado" sem o ser e gostarmos muito de nós.

Olhar para uma fotografia e pensar "bolas, estou bonita!"., não deve ser nunca motivo de dúvida ou de vergonha. No fundo, naqueles momentos de hesitação foi isso que senti. Pensei que se calhar o olhar era sedutor de mais e que a imagem em si era despropositada. Afinal, somos alimentados todos os dias com imagens de pessoas que transbordam sensualidade. É a banalidade que vende. Se gostarmos de nós deve ser a regra, tal não deve ser tornado numa banalidade trivial, porque em última instância o que é de mais enjoa. E o que enjoa, não pode ser especial.

Aqui sinto-me bonita, mas também me sinto transparente e despida de defesas. Por isto tudo, publicar esta fotografia é um acto genuíno, ainda que tirado a ferros. Ou, talvez seja o orgulho da cachopa de 12 anos, que se escondia e falava baixinho, a querer dizer alto e a bom som que está aqui. E que não vai a lado nenhum. Como mulheres, temos que ter o triplo da força emocional dos homens. A maior parte de nós, mães ou não, carrega o mundo às costas. Seja a trabalhar por conta de outrem, a gerir uma casa, a gerir um negócio próprio, a gerir uma casa e um negócio próprio, a gerir o periquito , o cão e os filhos. Vai na volta, esquecemos nos de nos gerir a nós mesmas. E isso é tramado. Mas, sobrevivemos. Por isso, é que uma fotografia nos faz acreditar que somos bonitas é mais importante do que pode, à primeira vista, parecer.

Sentirmos-nos bem faz-nos sentir capazes. E se formos capazes de nos sentir felizes, estamos a meio caminho de conquistar o universo. Partilhar isso com o mundo é a cereja no topo do bolo. {ser capaz de retirar o bom que se ouve dele é outra lição saborosa de aprender.}

 

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