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alfacinha

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Pessoas que me inspiram # 2 - Avô Pedrosa

Ao meu avô Pedrosa, 

 

Vou tentar te escrever sem te chorar, o que na medida do possível é um tanto ou quanto impossível. Dizer que me inspiras é pouco, ensinaste-me tanto, nas mais variadas formas e feitios que o verbo carrega. Nunca me vou esquecer do que o meu pai, teu genro, me disse quando morreste: "A maior herança que ele te deixa é o que tu tens dele e o que ele te ensinou. Honra isso naquilo que fizeres." Não sei se as palavras foram exactamente estas, mas sei que foi aquilo que delas absorvi.  

 

A lágrima é me fácil e já me escorre pela cara, talvez por seres no patamar das exigências uma das que mais rege a minha forma de estar e de viver. Ou por todos terem por ti tanta consideração e estima que seja difícil as mais belas e perfeitas palavras corresponderem ao ínfimo do que eras. Sinto que nunca são suficientes e que fica sempre algo por dizer. 

 

Em pequenina e sem análises de ser, eras o meu avô. Apenas o meu avô, o meu vôvô que me levava em aventuras e a conhecer mil e uma pessoas em meia hora de caminho. Eras um herói que andava de mão dada e que me tratava como se fosse sua igual, mas com o carinho e protecção tão próprio dos avós.  

 

Hoje vejo para além das maravilhas do olhar de uma criança. Eras um homem bom, um homem bom que como todos os homens bons tinha defeitos e teimosias. Essas são particularidades do ser que todos temos, são detalhes que fazem dos heróis homens, são detalhes que fazem dos homens heróis. Hoje são detalhes que nos fazem rir quando te recordamos, porque são traços do dia-a-dia que observamos uns nos outros. Contas feitas e saldadas são memórias. E as memórias tem de tão particular a singularidade de quem as viveu. E vivemos todos os teus traços, desde do homem que iluminava qualquer sala quando nela entrava, qual Humphrey Bogart qual que, até ao que tinha que ter o jantar na mesa às sete e meia mesmo nos dias longos de verão. Vivemos-te e tu ensinaste-me que o riso comanda a vida e que não há razão de a viver sem "joie de vivre"

 

Aprendi tanto contigo que é difícil enumerar as lições sem outra aparecer logo a seguir na minha mente.  

 

Observar, observar os detalhes do ser humano, assim como o detalhes das hortênsias quando as pintavas a pastel de óleo. Com paciência, observar e estudar o sujeito. Uma hortense é composta por várias flores pequeninas, não é apenas uma flor. A singularidade da flor foi uma lição de pintura, mas nela estava uma forma de ver o mundo. Há mais do que um todo, há vários que o compõem com a beleza e dificuldade que o ver implica.  

 

Cair, cair de bicicleta não é nenhum drama e não há nenhum motivo que nos impeça de voltar a pedalar. Na vida, somos sempre crianças a aprender a andar de bicicleta sem rodinhas. É impossível que não se caia dela umas quantas vezes e um arranhão no joelho pode valer mais do que um percurso sem percalços. Ensinaste-me a lamber a ferida durante uns segundos e mostraste-me que era mais divertido andar de bicicleta do que ficar a chorar sobre uma esfoladela.  

 

Igualdade, igualdade de género. A avó queria que eu bordasse e fizesse cópias à mão. Eu queria andar a saltar de galho em galho e sujar-me com a terra do quintal. Sobretudo queria andar contigo de um lado para o outro, fosse para aonde fosse, horas sem fim e sem limites. Hoje tenho pena de não ter aproveitado os ensinamentos da avó, mas não guardo nenhum arrependimento por os ter gasto em aventuras e caminhadas ao teu lado. As brincadeiras de rapaz não existem, nem as de menina. A liberdade que me permitiste ter ao teu lado ensinou-me a delicadeza da igualdade de género. Mostrou-me que somos iguais sem o ser e que é de pequenino que se ensina a liberdade de escolha, sem pressões ou restrições de brincadeiras. Hoje gosto mais de bordar, de costurar e de coisas de "menina", a liberdade de subir às árvores permitiu-me encontrar magia e aventura em actividades mais calmas. Contudo, a rebeldia da trepadora de árvores continua em cada corte que a minha tesoura faz, em cada ponto que a minha agulha dá. 

 

Conhecer, conhecermos-mos uns aos outros. Quando me lembro de ti sinto que te podia ter descoberto por mais mil e um anos, terias de certo me ensinado mais mil e uma coisas. Formaste-me sem me toldar, sem eu perceber, com o carinho e ternura com que nos chamavas riqueza. A mãe  e eu temos saudades dessa palavra ou apenas do som da tua voz quando a proferias. Mas, o curioso é pensar que se sou mais rica a ti, em parte, o devo. Bebi inspiração na tua forma despojada de ser, ensinaste-me a simpatia das palavras nos nossos passeios. Não havia ninguém que não te conhecesse, não havia ninguém que não te gostasse. Quando se diz isto de alguém parece impossível, parece mentira. Mas, é uma certeza para todos aqueles que te conheceram e que de ti guardam saudades e recordações. Podias ser tanto amigo de um barão como de um sapateiro, sem as caganças ou peneiras dos dias de hoje. Eras o Pedrosa, o tio Mané, o Manel de Santarém, o papá e o vôvô.  

 

Fosses quem fosses, eras sobretudo leal. E se a melhor forma de aprender é a ver os nossos ser, contigo aprendi que ser leal tem tanto de precioso como de raro e frágil. A lealdade é nos dias de hoje uma quimera e às vezes arranca-nos o coração do peito. Obstante isso, a lealdade vale a pena. Porque sermos leais aos outros é sermos leais a nós próprios e não há nada no mundo que pague isso. Não há nada no mundo que pague o descanso de um sono descansado e de uma cabeça tranquila. Procuro a lealdade nas pessoas como os mineiros procuram o ouro, com uma peneira a separar o trigo do joio. Quando a encontro agarro-me aos seus detentores e não os deixo partir. Sou lhes leal até o fim e luto por eles com a sede de viver que me ensinaste a ter. Porque a lealdade é o sangue que corre nas veias dos que não são nossos. E por se sangue se ama incondicionalmente, para sempre e sem barreiras, o mesmo é para ela válido. 

 

O que me corre nas veias é sangue, não é água. Dizias a frase vezes sem fim, de pulmão cheio e coração no bolso. Em relação à única irmã que tinhas viva e que muitos consideravam uma pessoa difícil. Acho que um dos teus maiores receios era que eu e o meu irmão nos déssemos mal. Prova está no facto de só te chateares connosco quando brigávamos um com o outro. Éramos cão e gato e às vezes ainda agimos como dois fedelhos selvagens, mas não só o sangue me faz ama-lo desmesuradamente e a admiração que tenho por ele é superior a qualquer briga de gatos. É um companheiro de passado, do presente e do futuro. É um irmão mais velho que trato muitas vezes com a protecção e carinho que trataria um irmão mais novo. Por isso, o sangue não é água, mas também é amor, dedicação e lealdade. 

 

Abraçar e aproveitar cada segundo, cada memória e história ouvida. Foi há dez anos, mas podia ter sido ontem. Correr para os teus braços faz-me falta. Abraçar-te vai ser sempre sinónimo de saudade. Uma saudade lendária, daquelas de filme. Esqueço-me sempre que já não eras novo, a desproporção da vida que tinhas em relação à idade era do tamanho do teu abraço. É fácil nos esquecermos que a vida tem, de facto, um prazo de validade. Prazo esse que, por vezes, parece nunca ser suficiente para aquilo que desejamos que os nossos passem ao nosso lado. É básico e simples, aproveitar cada abraço, cada história repetida vinte vezes, cada ralhete, cada balançar de perna, conversa e música sussurrada. Vamos sempre achar que foi pouco, também nunca gostamos que se acabem os iogurtes que mais gostamos, mas pior que isso é deixa-los na prateleira a passar do prazo.  

 

A beleza da vida está nas pessoas que cuidam de nós. Está nos detalhes, seja nos de uma hortense ou nos de alguém que se cruze pelo caminho. A alegria está nos joelhos esfolados e no cheiro do sol a bater-nos no rosto. A felicidade está na voz do Nat King Cole e nos tecidos surripiados no meio de um monte de retalhos. A paz está no ar do Coimbrão, na luz em que te encontro sempre que lá vou. A saudade está nos sofás de orelhas para aonde corria quando te abraçava. Nos sofás aonde me sento e te sinto quando preciso de afecto. A maravilha está no destino e nas suas particularidades. Está no escrever à mão este texto e quando o acabo verificar que o destino se encarregou que o escrevesse com uma caneta da tua antiga fábrica: Cerâmica Senhora da Guia Lda.  

 

A beleza está nas pessoas se guardarem no coração umas das outras. E tu estás em mim, para sempre, sem restrições ou limites. 

 

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