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alfacinha

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Pessoas que me inspiram # 1 - Avó Júlia

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A vida é feita de pessoas, de experiências e de memórias. Nela, há quem nos marca para sempre e que nos faz querer dar um bocadinho mais de nós a cada dia que passa. Tenho que falar dessas pessoas, das pessoas que me fazem querer ser mais todos os dias. Porque elas são uma das fontes de inspiração para o que aqui partilho. Sejam receitas, costuras, vivências, ideias…. Existe um bocadinho das pessoas da minha vida em tudo aquilo que faço. Pois essa é a minha forma de honrar aquilo que elas me dão – depositar um bocadinho delas em cada coisa que faça. Não há melhor fonte de inspiração do que o dia-a-dia e as pessoas que nele habitam. São essas pessoas que nos fazem ser únicos, é a combinação de todas elas e das vivências diárias que fazem de nós quem somos.

 

Começo por quem tinha de começar, pois é a única dos meus avós que ainda não partiu e sobretudo porque é uma das mulheres da minha vida -  a minha avó materna.

 

A minha avó Júlia é a minha grande inspiração no que toca ao mundo da costura, mas também é uma das minhas referências como pessoa. Quando era pequenina achava-a fria e pouco amiga de brincadeiras. Hoje recordo, com pena, as vezes que me quis ensinar a bordar ou a coser e nas quais eu não quis aprender – era um bocado maria-rapaz e estava mais interessada em andar a fazer explorações com o meu avô. No entanto, lembro-me com alegria dos pratos maravilhosos que nos fazia todos os finais de semana – cozinhar é mais do que uma arte, é um ato de amor. A cozinha servia de expositor àquilo que não conseguia mostrar. Era através dela que transmitia o amor e o carinho que por nós tinha. Das memórias da minha infância ficam os banhos por ela dados e as cópias que me obrigava a fazer quando me portava menos bem.

 

Era uma costureira exímia, sendo que tudo aquilo que fazia era perfeito. Ainda guardo com ternura todas as peças de roupa que nos fez, sendo que os vestidos de smocks feitos por ela são de cair para o lado. Quando costuro penso como é que ela faria, sendo que para ela os “atalhos” não existiam e era tudo feito “comme il faut”.

 

Apesar de ainda estar viva, a minha avó já não tem muitos momentos de lucidez e quando me comecei a interessar por costura, infelizmente, ela já não era capaz de me ensinar. Contudo, a vida permitiu que me ensinasse algo muito importante – a não julgar uma pessoa pelo que ela nós aparenta ser.

 

Quando o meu avô morreu, a minha avó veio viver connosco. Foi a partir daí que a conheci. O meu avô tinha uma personalidade eletrizante ofuscando, na maior parte das vezes, a minha avó que aos olhos da maior parte das pessoas era fria e distante. A imagem que tinha dela de toda a minha infância era, afinal, também a mesma. No entanto, aquilo que aprendi foi que por vezes as pessoas não são só aquilo que nos mostram, existem nuances. Por vezes, são essas nuances que nos definem e que nos marcam para a vida. A vida dela tinha algumas nuances e a frieza era apenas uma defesa. Nuances à parte, é a mulher mais forte e generosa que conheci até hoje. Provou-me que por de trás de um grande homem há uma grande mulher. Pois permitiu que o meu avô fosse aquilo que era, aparando muitos golpes, sendo que ele apaziguava a frieza dela quando a tratava por “riqueza”.

 

Ela ensinou-me que amar tem mais de uma forma. Ensinou-me que ,por vezes, os “atalhos” não são mais rápidos, seja na vida ou na costura.Transmitiu-me a importância que a educação escolar deve ter na vida de uma pessoa, sendo que dos maiores desgostos da vida dela foi não ter ido para a faculdade. Ensinou-me que uma senhora nunca sai de casa sem carteira e que um “obrigado” vale ouro. Deu-me as ferramentas para ser uma mulher moderna, mas sem esquecer que ser “boa dona de casa” é importante, mesmo quando os tempos são outros. Sobretudo, fez-me ver que podemos ser boas mães ou avós de mais do que uma maneira.

 

Quando conheceu o Manel mostrou-me que existe algo inexplicável nos laços de sangue, pois mesmo não estando lúcida senti que percebeu que ele lhe era algo. Provando aquilo que o meu avô dizia "o que me corre nas veias é sangue, não é água".

 

 Hoje em dia, ensina-me que uma festa e um beijinho são mais do que suficientes para fazer alguém feliz.

 

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